Elas no topo

Paredes naturais de pedra são belezas sem igual. Além de ótimos exemplares de contemplação, são também palco de praticantes e entusiastas de escalada globo afora, que, inclusive, tem ganhado cada dia mais adeptos, ou melhor, adeptas. O número de mulheres praticantes de esportes de aventura tem aumentado consideravelmente ao redor do mundo, levando muitas delas para a escalada, esporte que consiste na subida de montanhas, rochas íngremes, paredes de pedras, com – ou sem – o auxílio de equipamentos.

No lugar da bolsa: mochila. No lugar do secador de cabelos, blush e pó de arroz: cordas, mosquetões e muito magnésio. Ao invés de compras no shopping, salão com as amigas e playground com os filhos; montanhas imensas de rocha, escalada e trekkings em meio a natureza. O que permeia o mundo feminino já não o define. Mulheres podem disfrutar de sua feminilidade, fazendo o que bem entendem. Seja no parquinho, no escritório, seja em casa ou a mais de 4.000m de altitude, no topo de uma montanha, praticando algo que transporta a alma a outro lugar. Se as conquistas femininas tem proporcionado liberdade e escolha às mulheres, elas, sem dúvida, tem se encontrado cada vez mais na vida ao ar livre.

A independência feminina tem ressonado de forma ampla em diversas esferas, da mesma forma, dentro do cenário de aventura, provando que o sexo frágil tem desconstruído esse preceito e hoje, essa tal fragilidade, é desbancada por mulheres que colocam a vida a prova, em testes reais de força, técnica e concentração por um bem maior: a satisfação pessoal.

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“É desafiante superar meus limites físicos e psicológicos”, diz Branca Sales, jornalista mineira adepta do esporte, que garante: fazer força extravasa as tensões e mantém o corpo e a mente em forma. Para Janine Cardoso, heptacampeã do esporte vertical, a escalada vai além de qualquer esporte: “O que me motiva é o simples ato de escalar, de esquecer o mundo lá fora e viver aquele momento com uma superentrega, com foco. É um conjunto de coisas que me incentivam, mas, sem dúvida, a maior delas é o sentimento de superação aliado ao prazer de realizar uma atividade física intensa e complexa, liberar energia de uma maneira positiva e sentir o prazer da endorfina tomar conta do corpo”.

Na história mundial do montanhismo, diversas escaladoras encontraram seu espaço no esporte, mesmo quando a sociedade era ainda mais arcaica. Alison Hargreaves, no ano de 1995, realizou a ascensão ao pico Everest, sendo a segunda pessoa a obter o feito sem oxigênio. Na época, Alison foi alvo de críticas por praticantes do esporte e a imprensa que questionou sua moral por deixar dois filhos com o pai para escalar. O burburinho foi maior quando, 7 anos antes, Alison escalou o monte Eiger Nordwand, nos alpes suíços, grávida de 6 meses.

No Brasil, apesar de não haver nenhum registro que comprove o fato, acredita-se que o Costão do Pão de Açúcar tenha sido o palco da primeira escalada técnica feminina, realizada por uma inglesa, em 1817. As cariocas foram as pioneiras no esporte, iniciando na década de 50, quando algumas delas se tornaram guias de montanha, disseminando a atividade entre o gênero e incentivando as escaladoras que se formariam mais tarde. Hoje, muitas brasileiras praticam o esporte, aumentando não só o número de mulheres envolvidas na atividade, mas também o nível técnico, levando as escaladoras a enfrentar vias com grau de dificuldade cada vez mais avançado.

Desde escalada a canoagem, de ciclismo a paraquedismo. Independente da atividade, a participação feminina no mundo outdoor tem aumentado, demonstrando o potencial feminino. Como Alison, muitas conciliam a vida familiar, profissional, social e a paixão pelo esporte em meio a natureza. A luta pela liberdade é constante, vai além de um marco no calendário. A escalada é dura, a via difícil, mas todas alcançarão o topo.